quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Capítulo 1

Chronos Zweihander Faust levantou-se de sua cama devagar naquela manhã. Ainda sentia muito sono pela noite mal dormida, graças à ansiedade que o envolvia há muitos dias. As recentes conversas com os amigos e os planos traçados levaram o jovem a passar madrugadas adentro pensando em como seriam suas viagens que se avizinhavam e que perigos ele e seus companheiros poderiam enfrentar. Ele recordou a noite anterior, quando ele e os amigos beberam além da conta na taverna que ficava no andar de baixo, em uma espécie de festa de despedida para todos e ninguém.
Localizada no Distrito Oeste de Waterdeep, a capital do Reino, a hospedaria Estrela Vermelha era modesta, mas confortável e acolhedora. Foi ali, no quarto 7, que o meio-elfo passou a morar quando se mudou para a grande metrópole vindo de Undermountain, uma cidade próxima. Ele vinha atrás de uma chance de entrar na Academia de Magia de Waterdeep, mas logo descobriu que suas poucas moedas não poderiam lhe garantir essa oportunidade. Como não queria voltar para sua cidade natal de mãos vazias, o meio-elfo resolveu ficar um tempo a mais e buscar formas de ganhar dinheiro, mas isso não era tarefa fácil. Sem ter como pagar pelo quarto na hospedaria, Chronos buscou um acordo com sua dona.
Não era comum a velha Mara receber hóspedes por grandes períodos de tempo, mas ela logo percebeu que Chronos era um bom rapaz. Em troca de sua estadia na Estrela Vermelha, o mago passou a ajudá-la com pequenos serviços no dia-a-dia e já era uma espécie de funcionário-residente da Estrela Vermelha. Sempre havia algo para ser consertado, graças aos beberrões que se esbaldavam na taverna do térreo. Além disso, ele cuidava também dos oitos quartos do segundo andar que compunham a hospedaria, realizando as mais variadas tarefas. Quando tinha algum tempo livre, Chronos estudava o pouco de magia que tinha acesso, seja com pergaminhos de péssima qualidade comprados a baixos preços no mercado ou com alguma conversa com algum viajante que passasse pela Estrela Vermelha. Ele também fazia pequenas apresentações com seus truques mágicos nas feiras de Waterdeep em troca de dinheiro, e assim ganhava o troco que ainda o permitia sonhar com sua entrada na Academia. Apesar disso, no fundo ele sabia que jamais juntaria dinheiro o suficiente para atingir esse objetivo, e foi com esse sentimento que ele passou a se envolver nos ousados planos do amigo Christopher McLoud de se aventurar pelo mundo.
Havia um pequeno espelho no canto do aposento, próximo de uma tina cheia d’água límpida. Chronos era um jovem de traços finos por conta da parte élfica de seu sangue, graças ao seu pai. Seu rosto seria frio se não estivesse quase sempre sorridente, e esse humor ele creditava à sua mãe humana. Era bonito, unindo o que esses dois povos tinham de melhor. Os olhos verdes estavam sempre atentos e o cabelo, loiro, um pouco mais compridos do que sua mãe aprovaria, lembrou com um curto riso. Alguns brincos não passavam despercebidos ao olhar dos outros, graças às orelhas pontiagudas. Com estatura mediana e porte atlético, o garoto de 19 anos dificilmente não era notado pelas ruas de Waterdeep.
O mago foi juntando seus pertences, que não eram muitos. Ele ganhava pouco dinheiro na cidade e tentava juntar o máximo possível para comprar pergaminhos e livros de magia. Os bens de Chronos se resumiam a esses poucos livros, um velho bastão de madeira, um diário – onde ele também fazia anotações sobre novos feitiços e outras curiosidades místicas com as quais se deparava – e uma flauta feita por sua mãe quando ele era apenas uma criança. Até onde podia se lembrar havia sido criado apenas por ela, nunca tendo visto seu pai, apesar das frequentes histórias sobre Siegfried Zweihander serem contadas a todo momento em Undermountain.
Não era comum um elfo aparecer na cidade, especialmente um conhecido por sua participação em grandes batalhas. Sem nunca saber o que tinha levado o guerreiro até aquele lugar, Helena Faust acabou – sem querer – cativando o viajante. Segundo ela, os dois viveram felizes em sua casa por alguns anos. Siegfried sempre fora um tanto recluso e misterioso, mas nunca deixou de ser um bom marido no tempo em que estiveram juntos. Porém, pouco depois do nascimento do pequeno Chronos, o pai deixou seu lar e nunca mais retornou. Nenhuma outra notícia sobre Siegfried chegou à Undermountain ou qualquer outra cidade. Várias vezes Helena teve que lidar com as perguntas do filho, que queria saber aonde o pai fora ou porque deixara sua família para trás, mas a mãe sempre se esquivou do assunto e o garoto aprendeu a viver com o pouco que lhe era confiado sobre isso.
Perdido no meio desses devaneios, o rapaz demorou alguns segundos até perceber que já tinha terminado de colocar suas coisas na mochila. Lavou o rosto de novo para espantar definitivamente o resquício de sono que ainda sentia e olhou pela janela de sua casa – sentia que podia chamar aquele pequeno quarto disso – uma última vez. Fazia uma manhã bonita em Waterdeep e as ruas começavam a ficar cheias de pessoas no vai e vem habitual da capital. Pôs a mão na maçaneta da porta e a girou, preparado para conhecer o mundo.
Desceu as escadas da Estrela Vermelha calmamente e chegou ao salão principal onde ficavam uma dúzia de mesas e o balcão da taverna. Em um canto também havia um velho piano que ocasionalmente era tocado por alguém para alegrar as noites de bebedeira. O próprio Chronos já havia divertido os visitantes algumas vezes tocando as poucas músicas que conhecia de cabeça, já que um de seus passatempos era justamente brincar no antigo piano. Andou até ele e apertou um tecla sem ver qual era, mais uma vez pensando em turbilhões. Dó. O som ecoou no aposento, que estaria completamente vazio se não fosse a senhora que enxugava uma caneca no canto do balcão.
- Chegou o dia, garoto. Quer dizer que você ia embora sem se despedir de mim? – disse a velha em tom de brincadeira, mas assustando Chronos. Quando viu quem falara, não consigo esconder um sincero sorriso.
- Oi Mara. Não sabia que já estava acordada. – hesitou brevemente antes de falar com a voz um pouco mais fraca – Sim, chegou o grande dia. Apesar da animação, fico triste por ir embora.
- Não diga isso, menino. Eu bem sei o quanto você queria partir, quantas vezes não o ouvi ficar falando e suspirando sobre aventuras, tesouros... Quando seus amigos vinham aqui então, minha nossa! Ouvia vocês conversando até as altas horas da noite.
Ela usava um tom amistoso, quase maternal. Chronos era muito grato por tudo que Mara Eilin tinha feito por ele desde que chegara em Waterdeep, três anos atrás. Era um garoto com pouco dinheiro e muitos sonhos, e Mara logo o “adotou”. Nos primeiros meses, Chronos pagou a estadia normalmente, mas pouco tempo depois surgiu o acordo que garantiu ao jovem um lugar para dormir em troca de uma ajuda na gerência do Estrela Vermelha. Desde a morte de seu marido há muito anos, Pitósole Eilin – de quem Mara falava com uma freqüência impressionante - a velha senhora tocava os negócios sozinha e não tinha mais condições de realizar todas as tarefas. Com o meio-elfo e suas “mágicas”, como ela costumava dizer apenas para vê-lo torcer o nariz, era mais fácil consertar móveis quebrados, limpar o chão e tantas outras pequenas coisas. Havia também muito trabalho que era realizado no braço, como arrumar as camas, levar os carregamentos de comida e bebida para o estoque do porão, enfim, o tipo de coisa que uma senhora não poderia fazer sem ajuda. Por isso ela era grata ao mago e em pouco tempo os laços entre os dois se estreitaram. Agora era a hora de dizer adeus, pensou amargamente Chronos.
- Mara... Não sei como agradecer por tudo que você me fez. – colocou a mão na mochila, buscou algo por um momento e tirou um pequeno saco de couro que tintilou. Eram as (poucas) economias do rapaz. - Eu te devo muito mais do que minhas poucas moedas podem pagar, mas eu gostaria que você as aceitasse.
A dona do Estrela Vermelha olhou longamente para o inquilino. Os tempos não eram fáceis e sem dúvidas dinheiro era bem-vindo.
- Guarde suas moedas, Chronos. Você pode precisar delas nas suas andanças. Nunca sabemos aonde nossos passos vão nos levar, especialmente quando somos jovens. Seu caminho pode ser longo e complicado, e talvez você nunca volte para Waterdeep. Só quero que você saiba, menino, que se voltar, quero que me faça uma visita. É tudo que peço como retribuição.
Mais uma vez o meio-elfo sorriu e dessa vez não conseguiu evitar um leve rubor.
- Obrigado Mara. – disse Chronos, e foi até ela dar-lhe um longo abraço. Por fim, virou de costas e andou decididamente até a porta. Parou já do lado de fora da Estrela Vermelha, acenou uma última vez para a velha e fechou a porta. Dentro da pousada, uma solitária lágrima rolou pelo rosto de Mara. Em poucos segundos, porém, ela estava de volta ao trabalho. A hospedaria nunca parava...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Prólogo - Uma reunião peculiar

O último convidado para aquela incomum reunião finalmente se sentou, formando um semicírculo com os outros presentes, que o aguardavam em silêncio. Tinha sido uma longa viagem e o homem teve tempo de sobra para pensar e repensar porque estava indo até um lugar tão distante encontrar um grupo de desconhecidos. Não chegou a nenhuma conclusão.
Era uma esquisita visão para quem passasse por aquele lugar: gente sentada em torno de uma fogueira no meio de um imenso descampado, em uma amena noite de outono. O viajante atrasado percebeu que seus companheiros formavam de um grupo de homens e mulheres, a maioria deles abaixo dos trinta anos, provavelmente. Por um curto instante ele acreditou ver algo de familiar nas figuras ao seu redor, mas essa impressão logo passou. Havia coisas demais em sua cabeça...
Alguns haviam deixado seus pertences encostados em uma pedra próxima, mas outros preferiram manter suas armas por perto, talvez por desconfiança. De frente para eles estava de pé uma figura encapuzada, com o rosto envolto nas sombras e segurando um cajado. Separando o homem que havia convocado todos até aquele lugar e os bravos aventureiros que tinham comparecido havia a crepitante fogueira.
- Desculpe ter deixado vocês esperando – disse o rapaz, já acomodado no chão da escura planície.
- Não se preocupe. Hoje a noite está agradável e todos vocês fizeram longas e complicadas viagens. – respondeu o homem e se sentou logo em seguida, deixando o cajado de lado.
Fez uma breve pausa, e os outros convocados permaneceram em silêncio. Ele pareceu apreciar a bela lua que brilhava no céu, e mesmo com a cabeça inclinada para cima, ninguém conseguiu ver mais dos seus traços. Alguns sentiram um arrepio chegar à nuca, mas ninguém se mexeu ou disse nada.
- Bom – continuou – acredito que todos tenham alguma idéia do porque estão aqui. Todos sabem dos tempos que vivemos e, tendo lido a curta mensagem que lhes enviei, entendem o mínimo necessário para ouvirem o que tenho a dizer esta noite.
Uma jovem então falou, e seu forte gênio ficou claro para os outros através do tom de suspeita e ironia que sua voz carregava.
- Sim, lemos o bilhete que você escreveu para nós. Não acha muito pretensioso de sua parte achar que responderíamos a um chamado de um desconhecido que alega saber muito sobre algo obscuro demais? Como acha que isso soa para nós? Talvez isso aqui não passe de uma grande bobagem e estamos perdendo nosso valioso tempo com um charlatão qualquer que deseja se fazer de sábio.
O orador da reunião não pareceu se ofender com a insinuação da mulher e respondeu sem alterar sua maneira de falar, sempre calmo e pensativo.
- Talvez meu chamado tenha deixado mais dúvidas do que respostas nas cabeças de todos vocês, mas entendam que não seria seguro divulgar informações importantes em cartas. O que importa é que mesmo assim vocês estão aqui. De maneira pretensiosa ou não, meu objetivo foi alcançado.
Mais uma vez o silêncio se abateu sobre o grupo reunido em Lonefield, uma região erma do continente de Tesla. Depois de alguns segundos, que pareceram horas para aqueles que haviam viajado tanto sabendo tão pouco, o misterioso homem finalmente falou. Era hora de começar o longo discurso que a noite reservava.
- Toda lenda tem seus heróis, personagens de feitos épicos e que escreveram uma história de vitória e coragem. Porém, eles nascem desconhecidos, pessoas normais como outros tantos, cada um com suas peculiaridades, qualidades e defeitos. É preciso que um grupo se una em torno de suas individualidades para que bravos espíritos sejam capazes de mudar seus destinos e, às vezes, o destino dos outros.
- Poucas vezes se ouviu falar de um grupo que tenha capturado esse sentido, mesmo tendo convivido com tantas diferenças. Talvez por isso a maioria deles viva pequenas aventuras, se desmanche e seus membros façam novas alianças, apenas para repetir o ciclo. A história que vou lhes contar hoje cita muitos nomes, alguns bem conhecidos por vocês, e outros nem tantos. Porém os principais personagens dessa história foram os responsáveis por alguns dos maiores feitos que vocês já ouviram falar. E, mesmo tendo realizado tantas coisas grandiosas, tudo começou apenas como uma idéia tão comum como qualquer outra: aventurar-se por dinheiro e por diversão em Tesla.
- Talvez já estivesse tudo escrito. Há quem acredite em destino, que tudo já estava definido antes mesmo deles nascerem. É possível. Também pode ter sido uma brincadeira dos Deuses, jogando um xadrez entre si e com um deles conseguindo um xeque-mate usando apenas peões. O fato é que essa é uma história que trata do improvável. Outros heróis vagavam no mundo, muito mais experientes e carregando artefatos mágicos poderosíssimos, em posse de escritas ancestrais, donos de verdadeiros arsenais de armas e, ainda assim, quem fez a diferença foi um grupo de jovens que acabaram presos por acaso em algo muito maior do que pretendiam. Claro que outras pessoas fizeram sua parte, desde figuras lendárias como Dasmius até anônimos que pereceram e não tiveram seus nomes lembrados. Assim são as guerras e os eventos dessa magnitude. Mas vocês bem sabem que Christopher, Chronos, Richard e Furius são alguns dos nomes mais lembrados quando se fala sobre a Batalha de Waterdeep.
Agora foi a vez de outro homem, dono de uma bonita armadura reluzente, se pronunciar dentre os que ouviam o encapuzado.
- Você está falando mesmo de Mcloud, Zweihander, Fasthand e Goldhammer?
- Sim, estou. O que poucos sabem é quando e como essa história realmente começou e tudo que ela revela quando conhecida em sua totalidade. Para muitos trata-se apenas da chegada de quatro grande heróis à Capital quando ela mais precisou, e sua contribuição inegável para salvá-la. Só que para esses quatro rapazes, a Batalha de Waterdeep começou muito antes, anos antes, quando eles deixaram essa mesma cidade para trás. Mais do que isso, se poucos são aqueles que conhecem o inicia dessa história, quase ninguém sabe o triste fim que ela tomou. Ouvem-se muitos boatos, e eu asseguro, muito pouco é verdade. Se não acreditam em mim, peço que me digam o que aconteceu com cada um deles ao final dessa luta. Garanto que muitos de vocês terão versões diferentes, e estou igualmente certo de que nenhuma delas é a verdadeira.
Houve um momento de deliberação entre os que ouviam o homem, e sua suspeita se mostrou fundada. Logo uma quente discussão começou, envolvendo o nome dos quatro heróis em questão e seus finais. Alguns eram felizes como contos de fadas, outros misteriosos e trágicos. O orador se mostrou satisfeito em ver que, apesar das muitas mentiras e exageros, havia uma pitada de fato no que era dito. Ele se perguntou, mentalmente, como isso era possível, mas logo prosseguiu, elevando um pouco a voz para encerrar o debate.
- Foi para isso que eu os chamei aqui hoje. Sei que todos vocês são aventureiros capazes e estavam envolvidos em diversas missões, mas há coisas mais importantes acontecendo, agora mesmo, em algum lugar do mundo. Mais uma vez devo dizer que há muita especulação e poucos fatos. Minha intenção é que, ao saberem tudo sobre a história que cerca a Batalha de Waterdeep, vocês tenham as mesmas opiniões e desejos que eu tenho...