Chronos Zweihander Faust levantou-se de sua cama devagar naquela manhã. Ainda sentia muito sono pela noite mal dormida, graças à ansiedade que o envolvia há muitos dias. As recentes conversas com os amigos e os planos traçados levaram o jovem a passar madrugadas adentro pensando em como seriam suas viagens que se avizinhavam e que perigos ele e seus companheiros poderiam enfrentar. Ele recordou a noite anterior, quando ele e os amigos beberam além da conta na taverna que ficava no andar de baixo, em uma espécie de festa de despedida para todos e ninguém.
Localizada no Distrito Oeste de Waterdeep, a capital do Reino, a hospedaria Estrela Vermelha era modesta, mas confortável e acolhedora. Foi ali, no quarto 7, que o meio-elfo passou a morar quando se mudou para a grande metrópole vindo de Undermountain, uma cidade próxima. Ele vinha atrás de uma chance de entrar na Academia de Magia de Waterdeep, mas logo descobriu que suas poucas moedas não poderiam lhe garantir essa oportunidade. Como não queria voltar para sua cidade natal de mãos vazias, o meio-elfo resolveu ficar um tempo a mais e buscar formas de ganhar dinheiro, mas isso não era tarefa fácil. Sem ter como pagar pelo quarto na hospedaria, Chronos buscou um acordo com sua dona.
Não era comum a velha Mara receber hóspedes por grandes períodos de tempo, mas ela logo percebeu que Chronos era um bom rapaz. Em troca de sua estadia na Estrela Vermelha, o mago passou a ajudá-la com pequenos serviços no dia-a-dia e já era uma espécie de funcionário-residente da Estrela Vermelha. Sempre havia algo para ser consertado, graças aos beberrões que se esbaldavam na taverna do térreo. Além disso, ele cuidava também dos oitos quartos do segundo andar que compunham a hospedaria, realizando as mais variadas tarefas. Quando tinha algum tempo livre, Chronos estudava o pouco de magia que tinha acesso, seja com pergaminhos de péssima qualidade comprados a baixos preços no mercado ou com alguma conversa com algum viajante que passasse pela Estrela Vermelha. Ele também fazia pequenas apresentações com seus truques mágicos nas feiras de Waterdeep em troca de dinheiro, e assim ganhava o troco que ainda o permitia sonhar com sua entrada na Academia. Apesar disso, no fundo ele sabia que jamais juntaria dinheiro o suficiente para atingir esse objetivo, e foi com esse sentimento que ele passou a se envolver nos ousados planos do amigo Christopher McLoud de se aventurar pelo mundo.
Havia um pequeno espelho no canto do aposento, próximo de uma tina cheia d’água límpida. Chronos era um jovem de traços finos por conta da parte élfica de seu sangue, graças ao seu pai. Seu rosto seria frio se não estivesse quase sempre sorridente, e esse humor ele creditava à sua mãe humana. Era bonito, unindo o que esses dois povos tinham de melhor. Os olhos verdes estavam sempre atentos e o cabelo, loiro, um pouco mais compridos do que sua mãe aprovaria, lembrou com um curto riso. Alguns brincos não passavam despercebidos ao olhar dos outros, graças às orelhas pontiagudas. Com estatura mediana e porte atlético, o garoto de 19 anos dificilmente não era notado pelas ruas de Waterdeep.
O mago foi juntando seus pertences, que não eram muitos. Ele ganhava pouco dinheiro na cidade e tentava juntar o máximo possível para comprar pergaminhos e livros de magia. Os bens de Chronos se resumiam a esses poucos livros, um velho bastão de madeira, um diário – onde ele também fazia anotações sobre novos feitiços e outras curiosidades místicas com as quais se deparava – e uma flauta feita por sua mãe quando ele era apenas uma criança. Até onde podia se lembrar havia sido criado apenas por ela, nunca tendo visto seu pai, apesar das frequentes histórias sobre Siegfried Zweihander serem contadas a todo momento em Undermountain.
Não era comum um elfo aparecer na cidade, especialmente um conhecido por sua participação em grandes batalhas. Sem nunca saber o que tinha levado o guerreiro até aquele lugar, Helena Faust acabou – sem querer – cativando o viajante. Segundo ela, os dois viveram felizes em sua casa por alguns anos. Siegfried sempre fora um tanto recluso e misterioso, mas nunca deixou de ser um bom marido no tempo em que estiveram juntos. Porém, pouco depois do nascimento do pequeno Chronos, o pai deixou seu lar e nunca mais retornou. Nenhuma outra notícia sobre Siegfried chegou à Undermountain ou qualquer outra cidade. Várias vezes Helena teve que lidar com as perguntas do filho, que queria saber aonde o pai fora ou porque deixara sua família para trás, mas a mãe sempre se esquivou do assunto e o garoto aprendeu a viver com o pouco que lhe era confiado sobre isso.
Perdido no meio desses devaneios, o rapaz demorou alguns segundos até perceber que já tinha terminado de colocar suas coisas na mochila. Lavou o rosto de novo para espantar definitivamente o resquício de sono que ainda sentia e olhou pela janela de sua casa – sentia que podia chamar aquele pequeno quarto disso – uma última vez. Fazia uma manhã bonita em Waterdeep e as ruas começavam a ficar cheias de pessoas no vai e vem habitual da capital. Pôs a mão na maçaneta da porta e a girou, preparado para conhecer o mundo.
Desceu as escadas da Estrela Vermelha calmamente e chegou ao salão principal onde ficavam uma dúzia de mesas e o balcão da taverna. Em um canto também havia um velho piano que ocasionalmente era tocado por alguém para alegrar as noites de bebedeira. O próprio Chronos já havia divertido os visitantes algumas vezes tocando as poucas músicas que conhecia de cabeça, já que um de seus passatempos era justamente brincar no antigo piano. Andou até ele e apertou um tecla sem ver qual era, mais uma vez pensando em turbilhões. Dó. O som ecoou no aposento, que estaria completamente vazio se não fosse a senhora que enxugava uma caneca no canto do balcão.
- Chegou o dia, garoto. Quer dizer que você ia embora sem se despedir de mim? – disse a velha em tom de brincadeira, mas assustando Chronos. Quando viu quem falara, não consigo esconder um sincero sorriso.
- Oi Mara. Não sabia que já estava acordada. – hesitou brevemente antes de falar com a voz um pouco mais fraca – Sim, chegou o grande dia. Apesar da animação, fico triste por ir embora.
- Não diga isso, menino. Eu bem sei o quanto você queria partir, quantas vezes não o ouvi ficar falando e suspirando sobre aventuras, tesouros... Quando seus amigos vinham aqui então, minha nossa! Ouvia vocês conversando até as altas horas da noite.
Ela usava um tom amistoso, quase maternal. Chronos era muito grato por tudo que Mara Eilin tinha feito por ele desde que chegara em Waterdeep, três anos atrás. Era um garoto com pouco dinheiro e muitos sonhos, e Mara logo o “adotou”. Nos primeiros meses, Chronos pagou a estadia normalmente, mas pouco tempo depois surgiu o acordo que garantiu ao jovem um lugar para dormir em troca de uma ajuda na gerência do Estrela Vermelha. Desde a morte de seu marido há muito anos, Pitósole Eilin – de quem Mara falava com uma freqüência impressionante - a velha senhora tocava os negócios sozinha e não tinha mais condições de realizar todas as tarefas. Com o meio-elfo e suas “mágicas”, como ela costumava dizer apenas para vê-lo torcer o nariz, era mais fácil consertar móveis quebrados, limpar o chão e tantas outras pequenas coisas. Havia também muito trabalho que era realizado no braço, como arrumar as camas, levar os carregamentos de comida e bebida para o estoque do porão, enfim, o tipo de coisa que uma senhora não poderia fazer sem ajuda. Por isso ela era grata ao mago e em pouco tempo os laços entre os dois se estreitaram. Agora era a hora de dizer adeus, pensou amargamente Chronos.
- Mara... Não sei como agradecer por tudo que você me fez. – colocou a mão na mochila, buscou algo por um momento e tirou um pequeno saco de couro que tintilou. Eram as (poucas) economias do rapaz. - Eu te devo muito mais do que minhas poucas moedas podem pagar, mas eu gostaria que você as aceitasse.
A dona do Estrela Vermelha olhou longamente para o inquilino. Os tempos não eram fáceis e sem dúvidas dinheiro era bem-vindo.
- Guarde suas moedas, Chronos. Você pode precisar delas nas suas andanças. Nunca sabemos aonde nossos passos vão nos levar, especialmente quando somos jovens. Seu caminho pode ser longo e complicado, e talvez você nunca volte para Waterdeep. Só quero que você saiba, menino, que se voltar, quero que me faça uma visita. É tudo que peço como retribuição.
Mais uma vez o meio-elfo sorriu e dessa vez não conseguiu evitar um leve rubor.
- Obrigado Mara. – disse Chronos, e foi até ela dar-lhe um longo abraço. Por fim, virou de costas e andou decididamente até a porta. Parou já do lado de fora da Estrela Vermelha, acenou uma última vez para a velha e fechou a porta. Dentro da pousada, uma solitária lágrima rolou pelo rosto de Mara. Em poucos segundos, porém, ela estava de volta ao trabalho. A hospedaria nunca parava...
Nenhum comentário:
Postar um comentário