terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Prólogo - Uma reunião peculiar

O último convidado para aquela incomum reunião finalmente se sentou, formando um semicírculo com os outros presentes, que o aguardavam em silêncio. Tinha sido uma longa viagem e o homem teve tempo de sobra para pensar e repensar porque estava indo até um lugar tão distante encontrar um grupo de desconhecidos. Não chegou a nenhuma conclusão.
Era uma esquisita visão para quem passasse por aquele lugar: gente sentada em torno de uma fogueira no meio de um imenso descampado, em uma amena noite de outono. O viajante atrasado percebeu que seus companheiros formavam de um grupo de homens e mulheres, a maioria deles abaixo dos trinta anos, provavelmente. Por um curto instante ele acreditou ver algo de familiar nas figuras ao seu redor, mas essa impressão logo passou. Havia coisas demais em sua cabeça...
Alguns haviam deixado seus pertences encostados em uma pedra próxima, mas outros preferiram manter suas armas por perto, talvez por desconfiança. De frente para eles estava de pé uma figura encapuzada, com o rosto envolto nas sombras e segurando um cajado. Separando o homem que havia convocado todos até aquele lugar e os bravos aventureiros que tinham comparecido havia a crepitante fogueira.
- Desculpe ter deixado vocês esperando – disse o rapaz, já acomodado no chão da escura planície.
- Não se preocupe. Hoje a noite está agradável e todos vocês fizeram longas e complicadas viagens. – respondeu o homem e se sentou logo em seguida, deixando o cajado de lado.
Fez uma breve pausa, e os outros convocados permaneceram em silêncio. Ele pareceu apreciar a bela lua que brilhava no céu, e mesmo com a cabeça inclinada para cima, ninguém conseguiu ver mais dos seus traços. Alguns sentiram um arrepio chegar à nuca, mas ninguém se mexeu ou disse nada.
- Bom – continuou – acredito que todos tenham alguma idéia do porque estão aqui. Todos sabem dos tempos que vivemos e, tendo lido a curta mensagem que lhes enviei, entendem o mínimo necessário para ouvirem o que tenho a dizer esta noite.
Uma jovem então falou, e seu forte gênio ficou claro para os outros através do tom de suspeita e ironia que sua voz carregava.
- Sim, lemos o bilhete que você escreveu para nós. Não acha muito pretensioso de sua parte achar que responderíamos a um chamado de um desconhecido que alega saber muito sobre algo obscuro demais? Como acha que isso soa para nós? Talvez isso aqui não passe de uma grande bobagem e estamos perdendo nosso valioso tempo com um charlatão qualquer que deseja se fazer de sábio.
O orador da reunião não pareceu se ofender com a insinuação da mulher e respondeu sem alterar sua maneira de falar, sempre calmo e pensativo.
- Talvez meu chamado tenha deixado mais dúvidas do que respostas nas cabeças de todos vocês, mas entendam que não seria seguro divulgar informações importantes em cartas. O que importa é que mesmo assim vocês estão aqui. De maneira pretensiosa ou não, meu objetivo foi alcançado.
Mais uma vez o silêncio se abateu sobre o grupo reunido em Lonefield, uma região erma do continente de Tesla. Depois de alguns segundos, que pareceram horas para aqueles que haviam viajado tanto sabendo tão pouco, o misterioso homem finalmente falou. Era hora de começar o longo discurso que a noite reservava.
- Toda lenda tem seus heróis, personagens de feitos épicos e que escreveram uma história de vitória e coragem. Porém, eles nascem desconhecidos, pessoas normais como outros tantos, cada um com suas peculiaridades, qualidades e defeitos. É preciso que um grupo se una em torno de suas individualidades para que bravos espíritos sejam capazes de mudar seus destinos e, às vezes, o destino dos outros.
- Poucas vezes se ouviu falar de um grupo que tenha capturado esse sentido, mesmo tendo convivido com tantas diferenças. Talvez por isso a maioria deles viva pequenas aventuras, se desmanche e seus membros façam novas alianças, apenas para repetir o ciclo. A história que vou lhes contar hoje cita muitos nomes, alguns bem conhecidos por vocês, e outros nem tantos. Porém os principais personagens dessa história foram os responsáveis por alguns dos maiores feitos que vocês já ouviram falar. E, mesmo tendo realizado tantas coisas grandiosas, tudo começou apenas como uma idéia tão comum como qualquer outra: aventurar-se por dinheiro e por diversão em Tesla.
- Talvez já estivesse tudo escrito. Há quem acredite em destino, que tudo já estava definido antes mesmo deles nascerem. É possível. Também pode ter sido uma brincadeira dos Deuses, jogando um xadrez entre si e com um deles conseguindo um xeque-mate usando apenas peões. O fato é que essa é uma história que trata do improvável. Outros heróis vagavam no mundo, muito mais experientes e carregando artefatos mágicos poderosíssimos, em posse de escritas ancestrais, donos de verdadeiros arsenais de armas e, ainda assim, quem fez a diferença foi um grupo de jovens que acabaram presos por acaso em algo muito maior do que pretendiam. Claro que outras pessoas fizeram sua parte, desde figuras lendárias como Dasmius até anônimos que pereceram e não tiveram seus nomes lembrados. Assim são as guerras e os eventos dessa magnitude. Mas vocês bem sabem que Christopher, Chronos, Richard e Furius são alguns dos nomes mais lembrados quando se fala sobre a Batalha de Waterdeep.
Agora foi a vez de outro homem, dono de uma bonita armadura reluzente, se pronunciar dentre os que ouviam o encapuzado.
- Você está falando mesmo de Mcloud, Zweihander, Fasthand e Goldhammer?
- Sim, estou. O que poucos sabem é quando e como essa história realmente começou e tudo que ela revela quando conhecida em sua totalidade. Para muitos trata-se apenas da chegada de quatro grande heróis à Capital quando ela mais precisou, e sua contribuição inegável para salvá-la. Só que para esses quatro rapazes, a Batalha de Waterdeep começou muito antes, anos antes, quando eles deixaram essa mesma cidade para trás. Mais do que isso, se poucos são aqueles que conhecem o inicia dessa história, quase ninguém sabe o triste fim que ela tomou. Ouvem-se muitos boatos, e eu asseguro, muito pouco é verdade. Se não acreditam em mim, peço que me digam o que aconteceu com cada um deles ao final dessa luta. Garanto que muitos de vocês terão versões diferentes, e estou igualmente certo de que nenhuma delas é a verdadeira.
Houve um momento de deliberação entre os que ouviam o homem, e sua suspeita se mostrou fundada. Logo uma quente discussão começou, envolvendo o nome dos quatro heróis em questão e seus finais. Alguns eram felizes como contos de fadas, outros misteriosos e trágicos. O orador se mostrou satisfeito em ver que, apesar das muitas mentiras e exageros, havia uma pitada de fato no que era dito. Ele se perguntou, mentalmente, como isso era possível, mas logo prosseguiu, elevando um pouco a voz para encerrar o debate.
- Foi para isso que eu os chamei aqui hoje. Sei que todos vocês são aventureiros capazes e estavam envolvidos em diversas missões, mas há coisas mais importantes acontecendo, agora mesmo, em algum lugar do mundo. Mais uma vez devo dizer que há muita especulação e poucos fatos. Minha intenção é que, ao saberem tudo sobre a história que cerca a Batalha de Waterdeep, vocês tenham as mesmas opiniões e desejos que eu tenho...

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